Estou sempre sonhando
Um ser estranho num tempo longínquo
Longos braços tentando alcançar as nuvens
Se não posso tirar os pés do chão
É bom alongar os braços, como faço
Se não posso alcançar as nuvens
É bom alongar os braços, como as nuvens fazem
Estendendo os braços sobre as cidades
Carregando chuvas que não conseguem segurar nas mãos
Eu vi uma nuvem em formato de pão de cada dia
Recorrente como lavar o rosto de manhã…

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À notícia de revoltas e de dignações descontentes, escrevo meu parecer sobre os bancos. Banco é uma categoria volúvel em significação, variando de suporte do cansado e da bosta do passarinho à extorsão velada de até a última gota de suor da humanidade. Urge poupar os primeiros e desatar o nó que nos ata a esta bravata, que financia a compra do nosso terno de madeira, à sua maneira, e carrega a nossa dívida para a túmulo com tapinhas de sarcasmo em nossas costas, que se comove e chora reiteradamente a impossibilidade de lucrar ainda mais, enquanto vê a possibilidade logo ali, chorando seus mortos. Banca a liberdade que o homem tem de lucrar, desde que seja ele, o homem, e exalta a liberdade que os outros têm de serem escravos dele, nomeando “escravo” também, com outras significâncias como: funcionário, cliente ou amigo, ou mesmo, chamando aquele lugar, de nossa casa. Nos sentimos desconfortáveis em nossa casa como nos sentimos lá?

O Professor prometeu aos seus alunos não mais se atrasar, mas acabou
descumprindo a promessa, colocando a culpa neles. “Vocês são o motivo do meu atraso. Por ainda querer que aprendam algo eu continuo vindo aqui, apesar da minha desorganização.”

Falam que meia é só metade
Mas meia é uma palavra inteira
E metade, todo mundo sabe, também

Falam que longe é só saudade
Mas longe é perto pra quem ama
e perto, é longe, pra quem quer que seja 

Você já percebeu que a luz contínua não chama tanta atenção quanto um lume após um vaga-lume?  Deve ser por isso que este nos encanta tanto com seu lume intermitente, ou pelo menos, encantava.  As grandes idéias também são assim, precisam de uma pausa entre uma e outra para percebermos que as estamos tendo, pois, mesmo quando não as julgamos imprescindíveis, ao menos, porque antecedidas por um afélio, têm mais luz.  Se tudo na vida é assim, dia e noite, semana e fim de semana, vida e morte, alegria e tristeza, porque ingenuamente esperamos que tudo seja uma interminável felicidade?

A Felicidade também tem seus subúrbios.

A pipa é um exemplo de felicidade suburbana, que talvez não ganhasse um apêndice na história da ciência, mas que não precisa de muita ciência, mais do que da leveza do papel e da força do vento. A pipa contrapõe-se à tecnologia dos aviões. Eu arriscaria dizer que sobem muito mais pipas do que aviões, caem muito mais pipas do que aviões, mas aviões dão mais no que falar. Foi-se o tempo em que até um avião era uma espécie de pipa, foi-se o tempo em que voar era apenas o sonho de voar, era só uma imaginação, era dar susto em urubu, era não ter chão embaixo dos pés e era olhar as árvores com altivez. Voar era comparado a amar quando se dizia “andar nas nuvens”. Hoje, o significado de voar é não chegar atrasado a uma reunião de negócios. O progresso talvez nos leve para frente, nos adiante no tempo, nos poupe do cansaço, mas não nos leva para dentro das coisas.

O progresso subtrai as explicações impossíveis e resulta no óbvio.

O progresso é utilitário.

Mas eis que há notícia da resistência dos inúteis, buscando vagas para suas bundas nos bancos de praça, colecionando boletins rasgados em ânsia de vergonha, nos papéis amassados de escrita delirante, nas recusas, nas entrevistas de confirmação de desemprego, no tempo gasto em longas conversas e no choro pelo leite derramado literalmente.

Só os inúteis não olham para a tua utilidade.

Só eles terão tempo para sentar com você e chorar junto o teu fracasso.

Só eles aceitarão voar ao teu lado na luz e no vagar da luz.

Pra quê saber dos galardões antes do tempo
e roubar a surpresa?
Pra quê servem os presentes?
Pra quem são?
Pra mim,
ou para que o tempo pare?

E a lembrança apenas seja e nunca passe.

É tão difícil rasgar a pele deste meu mundo, a crosta terrestre da minha superfície e ficar com o coração na mão…

“Tudo que sobe desce e o que afronta isso é um grave paradoxo”
“Tudo que sobra um dia o meio cobra”
disse em poucas palavras
a fúria rastejante 
ao dar um bote nos canapés 
e pernas que sobraram 

quando a floresta acabou

EXÍLIO
(Helena Kolody)

Que saudade, meu Deus, que implacável saudade
De integrar-me, outra vez, em Tua eternidade!

Inquieta, a alma cintila,
Qual pássaro de fogo
Em cárcere de argila.

Quer ser, de novo, um ponto inponderável
Em teu perfeito circulo de luz

…e o momento seguinte (o seguinte) é um cego apalpando a calçada com seu braço alongado, alcançando mais longe do que qualquer um pode alcançar com olhos que só cumprem a sua função.

Bons poetas cultivam o bigode

Helvio Henrique de Campos é formado em História, funcionário público e poeta (pura pretensão), residente na fria Guarapuava no Estado do Paraná. Ama e é amado por Emilie, sua linda esposa e resolveu publicar suas idéias poéticas...

Premiado com a bolsa Funarte de criação literária/2009.

Comentários

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ovictorpereira em
Paulo em
Neusa Maria de Azeve… em à Emilie
Julio em Revista Continnum

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